27.10.10

O ritual de passagem

Eram quase seis horas, e eu estava parada diante de um sinal de trânsito na Bartolomeu Mitre, sem querer atravessar para pegar o rumo de casa. Meu dia tinha sido completamente improdutivo, e passar pro outro lado da calçada seria admitir que minha segunda feira fora de fato um retumbante fracasso. Eu precisava encontrar rapidamente alguma coisa que me fizesse sentir viva, eu não podia voltar pra casa achando que a vida era tão previsível quanto aquele bonequinho piscando em vermelho. Nesse momento eu lembrei que minha ex sogra morava ali por perto, e decidi, então, convidá-la para beber comigo um gole daquela tarde melancólica, e, quem sabe, salvar o dia.

Bete e eu não nos falávamos desde o tempo em que eu ainda tinha uma aliança no dedo, e que Laranjeiras era um destino calmo e inexorável. Ela me atendeu com a alegria iogue de sempre, e, em poucos minutos, chegou com um abraço que, tenho certeza, preparou desde que saiu de casa.

Como qualquer sogra e nora que se prezem, Bete e eu tivemos nossas rusgas durante os nove anos que namorei seu filho. Minha insegurança arrogante muitas vezes ia de encontro à raiva velada dela, mas, quando baixávamos a guarda, sempre nos reconhecíamos uma na outra, percebendo que, lá no fundo, a gente se amava.

Naquela tarde, sem mais razão pra mantermos a pose, sentamos para um café e nos ouvimos completamente imparciais. Trocamos novidades mundanas, é claro, mas, assim que o protocolo foi cumprido, passamos para os assuntos da alma, nossos preferidos, e, como nos velhos tempos, divagamos por algumas horas sobre o sentido da existência humana. Eu, como de costume, falei pra caramba, e ela, como de costume, me ouviu com generoso interesse. Bete gosta de me ouvir. E eu a ela. Enquanto eu discorria, ela me olhava com o coração, e, encontrando em mim sua própria inquietude, se compadeceu diante de todas as minhas questões. Bete sempre me entendeu, e eu, por meio dela, sempre entendi o amor de seu filho por nós. Freud explica.

Nossa conversa naquela tarde foi densa e vibrante, e, mesmo diante da tristeza de nossos argumentos, a gente se alegrou por nossa cumplicidade. É bom saber que não estamos sozinhos. A verdade é que, quando dei por mim, percebi que havia esquecido completamente da inutilidade daquela segunda feira chuvosa e, com o incentivo despretensioso da minha ex sogra, me senti pulsando novamente. De repente, no meio do papo, como se não estivéssemos rasgando o coração diante daqueles cafezinhos, Bete se apressa em pagar a conta (“você é atriz em começo de carreira”) pra fumar seu habitual cigarrinho do lado de fora, e, resolvida a abstinência, caminhamos juntas até o sinal novamente.

Chegando lá fez-se o silêncio. Os assuntos mundanos voltaram. A certeza da despedida ficava escondida em frases desconexas, em esperanças vazias, em sorrisos falsos. Atropelamos o beijo na bochecha. Nos abraçamos forte. O sinal fechou. Eu, enfim, atravesso.

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Meditação - Nara Leão (atividade e cantora favoritas de Betice)

Quem acreditou
No amor, no sorriso, na flor
Entao sonhou, sonhou...
E perdeu a paz
O amor, o sorriso e a flor
Se transformam depressa demais

Quem
No coraçao
Abrigou a tristeza de ver
Tudo isto seperder
E na solidao
Procurou um caminho e seguiu
Já descrente de um dia feliz

Quem chorou, chorou
E tanto que seu pranto já secou
Quem depois voltou
Ao amor, ao sorriso e à flor
Entao tudo encontrou

E a própria dor
Revelou o caminho do amor
E a tristeza acabou

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