25.2.10

ESPANHA NO AR



Sempre que eu entro num vôo eu me pergunto se já não deveríamos estar na era do teletransporte. Morro de medo de avião. Saídas de emergência, tobogãs de plástico, assentos flutuantes; tudo aquilo me dá uma incômoda sensação de impotência, além de uma certa raiva da galera do Niels Bohr, que anda muito devagar nas pesquisas quânticas. Eu penso que, a essa altura do campeonato, deveria haver uma forma menos angustiante de locomoção. Mas tudo bem, eu não quero falar sobre avião, nem entrar na discussão sobre a reprodução dos fótons, afinal de contas, estou voltando pra casa, e tenho muita coisa pra contar sobre meu carnaval na Espanha. Assim sendo, não vou nem mencionar a turbulência sinistra lá de fora. Não vou mesmo.



Madrid é espetacular. Da memória de infância, só guardava a imagem de meu avô me retirando às pressas da Plaza de Toros, morrendo de vergonha dos meus gritos de fúria dirigidos ao toureiro - desde aquela época eu torcia pelo touro. Dessa vez eu pude reencontrar uma cidade linda, militarmente limpa, pouco cosmopolita e com os garçons mais antipáticos que encontrei na minha vida. Marta dorme tranquilamente ao meu lado, como se o trepidar das nossas cadeiras fosse o colinho da vovó Marília, que inveja.

Não lembrava da suntuosidade do Museu do Prado . Nas suas várias salas, meio desorganizadas, pude ver obras de Raphael, Botticelli e Tintoretto, mas o que mais gostei foram as pinturas pretas do Goya. Nessa fase, mais irônico e irreverente, o gênio espanhol retrata em cores escuras a miséria e a corrupção humana, mostrando o quanto sua temática viajou com o passar dos anos. Olha que intrigante.



Francisco de Goya, O homem velho


Francisco de Goya, Saturno devorando seu filho



Francisco de Goya, O cachorro - dizem que o olhar do cão direcionado à sombra representa a inexorabilidade da morte. Sinistro...


As meninas, de Velásquez, também é big deal no Prado. O quadro é cheio de personagens, e ouvir a explicação sobre elas é mais legal do que admirar a perspectiva e as expressões vivas da obra. Valeu a pena, no entanto, parar em frente dessa beleza só para depois, em Barcelona, poder comparar com versões bem mais divertidas de Picasso.



O Reina Sofia foi inesquecível porque lá pude ver a Guernica, masterpiece de Picasso que estudei desde o colégio, e que foi tema de um trabalho meu na faculdade. No museu, pude caminhar pelos estudos do pintor, entender como suas intenções evoluíam, e olhar, literalmente, seu raciocínio diante da tela até chegar à sua obra prima. Foi emocionante ficar cara a cara com a gigantesca visão de Pablito sobre a Guerra Civil Espanhola.


Repara o os corpos desmembrados, os olhos desesperados, os cavalos em sofrimento, a mãe segurando o filho do lado esquerdo da tela... E a luz, que vinha do descohecido, seria uma esperança para a Espanha? Genial.


Falando em luz, a luzinha para manter os cintos afivelados apagou, bom sinal. Vou aproveitar essa deliciosa estabilidade pra falar sobre meu museu favorito de Madrid, o Thyssen Bornemisza. Lá estão os impressionistas, os expressionistas e, o melhor de tudo, a avant-garde russa. Comprei vááárias gravuras!!



Liubov Popova, Desenho para revista de teatro




Maria Bri-Bein, Hail The Equal Woman of the URSS


Liubov Popova, The Clock




Mulher tomando banho, Roy Linchenstein

Marc Chagall , La Casa Gris



Liubov Popova, Instruments



Antes de entrarmos em outra zona de convergência, deixa eu falar de Barcelona. Uma cidade virada para o sol, uma mistura de Europas, um caldeirão cultural, uma delícia. As obras de Gaudí, aliás, dão vontade de comer. Minha ignorância arquitetônica só conseguia compará-las a gigantes construções de marshmallow, uma explosão de inovação e criatividade. Olha só a casa que esse gênio, em 1904, arquitetou para um comerciante de tecidos da época.



Fachada Casa Batlló



Pátio interno - o arquiteto buscou inspiração nas ondas do mar




Sala principal



Na pedreira fica o Museo Gaudí, super elucidante. Lá aprendi que o arquiteto encontrou inspiração em formas da natureza para inventar sua revolucionária estrutura de sustentação por arcos parabólicos, todos moldados pela gravidade.


Genial!

Devíamos ter um museu assim para o nosso Niemeyer, né? Ele não fica nem um pouquinho atrás de Gaudí.

Mudando de assunto, não dá pra perder a night de Barcelona. Sério. Os cinco ambientes da imensa Razzmattazz, por exemplo, são divididos por estilo de música, e neles vc encontra tudo que é tipo de drink, banda e sotaque. Eu não arredei pé do Pop Bar, que tocava de Franz Ferdinand até Nina Simone. Um luxo.


Fica ainda mais difícil compreender o catalão com 94 decibéis de música eletrônica ao fundo.


chico gente buena!! rsrsrs


Pollo ou pasta? - pergunta a comissária de bordo, com um sorriso impaciente. Chegou a hora da nossa “comida” (não vou nem perder meu tempo explicando as aspas). Essa frugal refeição me lembrou que a gastronomia de Barcelona é um capítulo à parte. O Mercado da Boqueria, na movimentada La Rambla, é um turbilhão de aromas e sabores. Aquele lugar confuso é sem dúvida o paraíso das especiarias, uma espécie de Disneylândia dos chefes de cozinha. Vale a pena beliscar uma macadâmia enquanto passeia pelas ruelas apinhadas. O açafrão de lá é excelente, e ainda por cima mais barato.


Gambas?? Nham, nham!


Parece a Cobal em dia de feira. A cara feia da tia é pq lá fede mesmo.


Também não dá pra sair de Barcelona sem experimentar a melhor paella da Espanha, a do Merendero de La Mari. Além de uma vista espetacular do Porto, ele é da Mari, né, gente. (rã!)




O Los Caracoles é um dos mais tradicionais pontos gastronômicos da Cataluña. Totalmente old school, o lugar é cheio de fotos de clientes famosos nas paredes, tipo Alfredo di Roma. Claro que a grande atração do restaurante são os caracóis, ou melhor, os escargots, pra ser bem nojenta. Nojento mesmo, mas gostoso.


O Els Quatre Gats é, além de restaurante, um cartão postal da cidade, pois foi lá que Picasso fez a sua primeira exibição de quadros. A comida não é nada demais, mas o lugar, no Bairro Gótico, é extremamente charmoso pra um té no fim da tarde. Lá tive que tomar a iniciativa de anotar os incessantes pedidos de reserva, pois o telefone não parava de tocar e ninguém atendia. O gerente amou a idéia, e nós demos boas risadas.






O parque Güell é outra deliciosa estrutura marshmelliana de Gaudí. Imperdível passear pelas estradinhas, visitar a casa que Gaudí morou, sentar nos banquinhos de trencadis e admirar a vista barcelonesa. Que vidinha mais ou menos...









Na Fundación Joan Miró pude jogar fora o preconceito burro que eu tinha contra o pintor. Aprendi que sua genialidade está na intenção de assassinar a pintura, de quebrar completamente com padrões estéticos e intelectuais e de mostrar, em primeira mão, que a arte é, simplesmente, uma sensação.


Joan Miró, O Ouro do Azul




Faltam três horas para pousarmos no Brasil. Agora veio outra turbulência, mais forte e mais perto de casa. É provável que eu precise respirar normalmente quando as máscaras caírem, por isso, acho prudente desligar essa jeringonça agora, mas, antes, queria deixar registrado que meu carnaval foi inesquecível, que a companhia das gats foi sensacional, e que a Espanha nunca mais sairá do meu coração. Olé!



Plaza Mayor






Bairro Gótico


Els Quatre Gats





Arco do Triunfo e o bonde dos óculos novos. Viva Dior!!



Plaza Real (Juan, por Diós, que frio!)


Parque del Retiro
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